CA FU NÉ

Esse texto foi retirado do blog petiscos, escrito por Antonio Fabiano. Uma boa maneira de começar a quarta cheia de dengo.

“Eu adoro a palavra. Adoro falá-la devagar, curtindo cada uma das três sílabas que antes de serem juntadas, pareciam que nada daria. Mas deu. Cafuné. Palavra boa e que enche a boca de quem fala e faz tremer o corpo todo de quem recebe. Ca. Fu. Né. E é gostoso falar devagar, com a respiração pausada entre todas elas, curtindo cada milímetro, cada momento da palavra que era para dar errado mas não deu.
Porque existe muito jeito de mostrar afeto, amor, ternura, tesão. Mas ela, só ela, mostra todos eles. Basta mudar a maneira, a pessoa, a situação. E pode ser feito em qualquer lugar, rápido ou demorado que sempre vai ser bom. A gente faz em cachorro, em gato, em peixinho beta dentro do aquário. A gente faz na tela do computador com o skype ligado quando estamos longe de uma pessoa que gostamos muito. A gente faz antes de beijar na pistinha quando toca aquela música delícia que tanto amamos ouvir. Às vezes vem disfarçada de movimentos rápidos que fingem que vão arrumar o cabelo mas, ledo engano, aquele gesto rapidinho era puro afago, só demostração de que está tudo bem e que é bom estar lá, frente a frente, sem palavra nenhuma só com carinho, só com atenção.
E a sensação que tenho é que o melhor sono é aquele que a gente deita na perna e começa a receber aquele afago bom, aquele coçar do couro cabeludo bem de leve, que a gente vai sentindo as unhas massageando tudo e ouve bem baixinho que seu cabelo é fininho como de criança ou que está mais do que na hora de cortar aquela cabeleira gigante. E a gente dorme completamente livre, sabendo que não vai ter pesadelo porque tem gente do lado para espantar qualquer monstro insuportável que ousar perturbar nosso sono.
Tenho para mim que a pessoa que faz cafuné é a mesma que acorda no meio da noite e fica olhando você dormir e ri baixinho a cada tremilique que você dá durante o sono. É a que pega dez minutos da madrugada para fazer um carinho no seu cabelo que não será sentido nem notado e, no dia seguinte, sequer será comentado mas isso pouco importa. Pouco importa porque quem recebe também sabe doar seu momento mais inofensivo, mais frágil e mais delicado para o outro. E no dia seguinte os dois acordam e não imaginam o que cada um fez, nem o que sentiu porque cumplicidade que é cumplicidade carece de pouca explicação.
E escutem meninas: moleques curtem cafunés. Mas muito e do tipo muito. Vocês já perceberam que o homem menos carente é muito mais carente do que a mulher mais carente, né? Pois é isso. A gente curte achar que vai morrer com qualquer gripe, a gente quer tomar bronca porque usa roupa de maloqueiro e a gente quer carinho na cabeça do mesmo jeito que vocês fazem em labradores de comercial de ração quando o encontram na calçada a caminho da padaria.
E sem explicar direito porque a gente ama cafuné, talvez porque a palavra é uma delícia de falar devagarzinho, talvez porque é bom fazer e é muito bom receber, que lanço o apelo mais maravilhoso do mundo mundial: façam sempre e se deixem receber sempre. Mais e desesperadamente mais”.

 
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