Muito cuidado com o que deseja

Você quer viver 100 anos? Eu nunca desejei isso para mim. Viver nem sempre é sinônimo de qualidade de vida. Você pode estar simplesmente subexistindo. Parada no tempo a espera da morte e até podendo desejar por ela secretamente.

A imagem que eu tenho é de um sofá sem molas, com o tecido gasto e eu deitada nele (como se fizesse parte do móvel), esperando pelos meus netos e bisnetos em um domingo encalorado. Isso, se eles morrarem na mesma cidade que eu. Isso, se meus genros conseguirem convencer os filhos que será só meia horinha de visita, barganhando um sorvete do shopping na saída. 

Não quer dizer que não serei querida, uma vó adorável, uma pessoa cativante e cheia de experiências para trocar, quer dizer que cada pessoa tem sua vida, seus interesses, seus compromissos e em nenhum deles está incluso ser babá de véia. Nossos avôs foram para guerra. Nossas avós alfabetizaram milhares de pessoas. Nossos bisavôs foram dentistas. Nossas bisavós criaram 7 filhos. Eles, com certeza, tiveram histórias interessantíssimas para contar. Mas quem estava lá para ouvir?

Muitas vezes, as únicas companhias dos idosos são as dores. Centenas delas, no corpo todo, espalhadas em cada ossinho, em cada articulação, em cada pensamento. Nunca ouviu essa expressão: Dói até o pensamento? Eu imagino que sim. Por isso, tenho tanto medo quanto dó de envelhecer. E ao mesmo tempo, que peço chorando acariciando o resto da minha vó fofa de 85 anos esperar mais um pouquinho, sei que estou apenas sendo egoísta, pelo simples fato de eu não saber lidar com a morte, e talvez eu nunca aprenda.

Pessoas boas de coração, lindas e caridosas como nossos avós, não podiam nos deixar nunca. Eles são o nosso alicerce, nossa riqueza, eles contam a nossa história enquanto rezam para que nossos caminhos se abram. Eles são a coisa mais preciosa dessa vida e nós a razão por eles continuarem vivos. Mas eu sei, dentro de mim, que a troca não é justa.

Quando eu digo que quero partir com uns 70 anos, pareço afrontar um monte de pessoas que me julgam vaidosa demais. Mas é lógico que quero paparicar os meus netos, ver crescer os meus bisnetos e respirar até o último ar que me cabe. 

Hoje sonhei que estava no hospital lutando para ver minha sogra que estava internada há 6 meses. Acordei cansada. Logo mais meu marido avisa que a bisa dele de cem anos está internada com pneumonia e água no pulmão. A primeira coisa que consigo me lembrar é do sorriso dela. A vuela paraguaia tem um lindo sorriso. Um cheiro doce. A pele macia. Os olhos brilhantes. Os cabelos finos. Um abraço emocionado e para sempre.

Eu não quero que ela vá embora. Não quero mesmo. Mas aí volta aquela pergunta: – Estou sendo egoísta?

Deus quem sabe.

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