O começo de uma nova vida – Episódio 4 – Primeira temporada

E as férias chegaram. Com ela, a expectativa de que faltava muito pouco para operar. Recebi a boa notícia que minha mãe havia antecipado a data do dia 19 para 12, e que meu pai tinha finalmente esquecido um pouco o medo e decidido ficar ao meu lado seja qual fosse minha decisão.

O que eu não poderia prever é que ainda faltava um longo caminho pela frente. Passei a morar no hospital. Para você ter uma ideia, a assessorista do elevador já me esperava com a porta aberta para eu não perder tempo quando chegava correndo para pegar as novas senhas. Ora para o sétimo andar, outras para o primeiro, algumas para o décimo segundo, e depois de cima para baixo, pro meio, para cima novamente.

A previsão é te atender em 15 minutos, senhora – No caso, a senhora era eu, e mais no caso ainda, eu não seria atendida nem na próxima década. Abaixo de muita reza, seria atendida antes que o hospital fechasse. Por isso, quando meus joelhos cansavam de ficar na sala lotada com outros 18 obesos de 160 quilos e abafada porque o ar-condicionado havia quebrado, eu preferia fazer uns exames de sangue do que ficar me lamentando de ter sido despreparada e não ter levado um livro.

Quantas vezes tirei sangue? Mils. Na segunda, fui tratada como um bebê, não dói nada, vai ser só uma picadinha. Na terça, o enfermeiro perguntou que tinha feito aquele hematoma no meu braço ficando bastante surpreso quando apontei para o lado e indiquei sua colega. Na quarta, para confirmar porque o exame deu reagente, sendo que eu nãoooo tinha hepatite B. Na quinta, para tirar um liquido do meu punho, sendo avisada por antecipação que iria doer muito e era melhor eu torcer para ele conseguir acertar de primeira minha artéria. Na sexta, depois de litros mais fraca, fui compadecida com um pirulito de coração na saída.

Fora isso, teve aquele exame que entrei dentro de um cubo percebendo então a minha ligeira propensão à claustrofobia. E aquele que descobri que tinha pedras na visícula e ao invez de eu apenas retirar as pedras teria que realizar uma operação para tirar a visícula toda. E teve um terceiro que colocaram 20 fios na minha cabeça, 2 no meu peito, alguns na face, no pescoço, um tubo no nariz e me prenderam com cintos de segurança na cama para que eu não pudesse me mexer. 

Depois de cada dia agradabilíssimo, em que eu imaginava onde estariam meus colegas nesta semana de recesso, enquanto eu estava lamentando cada dia da minha existência por ter me obrigado a passar por esta situação, eu pensava: – Que sirva de lição pra quando você ousar a dizer como é bom um Mc Donalds! E completava: – Quando você sentir fome, lembre-se do sofrimento pelo qual esta passando e não queira repetir isto de novo.

Como tudo que acaba, chegou o ano novo e encubi minha tia de pegar os últimos laudos que faltavam e confirmar a cirurgia.

 
 
 
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